Então, carpiste?

30 05 2006


Silêncio….. silêncio……… são dias em que não me apetece dizer nada.
- Então, carpiste?
- Carpi.
Há pessoas com as quais não precisamos sequer de conversar, estão em sintonia, mesmo planeta, mesmo comprimento de onda. A minha amiga Mafalda é mesmo assim, basta-me estar, basta-lhe olhar-me nos olhos e dispara. Sempre certeiro, sempre sobreposto de nada. E ficamos ali, num silêncio durante o qual debatemos todos os temas dos quais não apetece dizer.

- Pois é, parece que a imaginação te completa o destino até que o oposto aconteça. Um coração maduro é isso mesmo, já nada te surpreende, já não queres nada, não há nada que te apaixone. Acorda, a vida é mesmo só isto.
- E se te calasses?
De facto começo a apreciar o silêncio. Imensas coisas nos unem mas não faz parte da minha natureza sobreviver com o coração resignado.
Não sou, nem pretendo ser detentora da verdade, mas surpreendo-me com cada vontade diferente, confio no melhor de cada um, apaixono-me de coração aberto, e sobretudo sei que só no que se transforma, cresce e reforma e muda encontramos verdadeira segurança.
Ter medo de ter medo, é ridículo, é deixar o coração ali arrumado porque agora “a vida é só isto”.
Se existe uma certeza é a de, dentro dos parâmetros razoáveis, não querer chegar ao fim da vida sem ter vivido. Prefiro errar, aprender e trilhar caminho. Isto é básico.
Minha amiga, do meu ponto de vista, a imaginação não completa, mas complementa. Não o destino, isso soa-me a vago, mas a realidade, aquilo que decides fazer contigo e o modo como decides encarar o que acontece.

“É essencial: Ter o prazer de ser quem quero. A força para o conseguir, a energia para realizar além, e o poder de guinar quando é necessário. A tranquilidade para o saborear.”

Mas este, é só o meu feitiozinho terrível. Existem outros.





Mag8

28 05 2006

Com o amigo Mike, a melga. Siimm, há vida para além da programação.

Mag8
O pescador.Dúvida existencial: a minha barriga é mais pequena que a do pescador, né?
Antes do anoitecer.





Sábado pela manhã

27 05 2006

Sábado pela manhã. Adoro estes dias.
Levanto-me e em passo ligeiro dou uma olhadela pela casa. Quase perfeito.
Tomo um duche com tudo aquilo a que tenho direito, corpo nu, como quem se despe de tudo. Sinto o cheiro dos óleos com que me mimo, dos verdes espalhados pela casa, do insenso de jasmim que deixo correr. Água fria como quem pede que acorde, já durmo há alguns dias. Acorda, acorda, por favor acorda. Afasto daqui o pensamento e enrolo-me numa toalha. Aconchego-me enquanto escolho um vestido. Está tanto calor que quase não respiro. Penso que se o fizer mesmo devagarinho, não dou por nada. Visto-me. Adoro andar descalça! Vou até lá fora, sou apanhada de surpresa quando fica feliz por me ver. Este cão é doido! Festa na tola, cócegas na barriga, ajoelho-me perante tanta meiguice e fico ali a brincar. “Pronto, já chega, senão habituas-te!” digo em tom de criança tirana. Grrr.
Preciso de um jarro de água, vamos lá alimentar estas plantas todas. Quero tudo verde, cheio de cor. Parece que ouvem, quando viro costas está tudo resplandecente. Pego na cesta, calço as socas e saio à rua. Tomo um café que detesto. Yach! compro o jornal, e sento-me a lê-lo. “Deixa cá ver o que se passa.” Perco-me na leitura, olho o relógio e saio a correr.
Quando chego à praça vejo tudo em alvoroço. Isto é bestial, não suporto sítios fechados e cinzentos. Qual modelo, qual continente!
“Bom dia, senhor!”.”Olá, bom dia menina! O costume?”, “Sim, sim” estou mais atenta ao perfume das ervas aromáticas. Verdes, vermelhos, castanhos, roxo e outras cores e formas. Passo a mão por tudo, sem agarrar nada. “Está bem disposto? Prepare-me tudo, eu volto já”.
Estudo quem passa, “que simples”. “Tenho aqui um peixinho muito bom, olhe para isto, guardei-o para si.”, “Sim está bem, venha daí esse, aqueles chocos e aquilo ali.” Nunca sei o nome das coisas. “Aquele acho que o estou a reconhecer, vi-o no Oceanário!Lá tem muito mais graça” e sorrio. O gajo ri-se, e diz que sim, que andam por lá.
Dou mais uma volta, passeio entre cheiros, cores, pessoas e sabores. Agrada-me isto. Roubo uma azeitona. “Aaaaaaaaaaaiii, queeemmmm é que quer cebolas??????” gritam lá do fundo. Eu quero! cebolas, alhos, alecrim e todas aquelas coisas em rama.
Chego a casa e penduro tudo. Preparo as azeitonas do mesmo jeito que a avó fazia, à sombra. Pico os alhos, rasgo os oregãos, rego com azeite. Bebo um batido de fruta madura, vermelha. Ahhh gosto da vida que tenho. Odeio quando me esqueço quem sou, mas acontece. Sento-me na cadeira de madeira e desfolho a revista que acompanha o jornal. Fazem um casal amoroso. Ela sempre interessante, actual, ele sempre muito sério, repleto de conhecimento.
Lembro-me que tenho visitas, bons amigos para receber ao almoço. Isto vai ser uma almoçarada de boa conversa. Música, preciso de música enquanto cozinho. A vida devia ter uma banda sonora, em baixo volume.
Faço uns chocos à algarvia. Recordo que o meu pai dizia sempre que as minhas mãos eram de fada, apenas porque fazia tudo apaixonada, com dedicação. É verdade, aprendi sozinha, mas isto sai sempre bem, e ainda arranjo as flores que comprei no mercado.
Ahhh tranquila, respiro fundo. Bem vinda a casa. Estou em mim, de novo.





Sol de Inverno

26 05 2006



Sabe deus que eu quis
Contigo ser feliz
Viver ao sol do teu olhar,mais terno.
Morto o teu desejo
Vivo o meu desejo
Primavera em flor
Ao sol de inverno
Sonhos que sonhei, onde estão
Horas que vivi, quem as tem
De que serve ter coração, e não ter o amor de ninguém.
Beijos que te dei, onde estão
A quem foste dar, o que é meu
Vale mais não ter coração
Do que ter e não ter, como eu.
Eu em troca de nada, dei tudo na vida
Bandeira vencida
Rasgada no chão,
Sou a data esquecida
A coisa perdida que vai a leilão.
Sonhos que sonhei, onde estão
Horas que vivi, quem as tem
De que serve ter coração, e não ter o amor de ninguém.
Vivo de saudades, amor
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de inverno
Não tenho calor.

Simone de Oliveira





Bastava-nos amar. E não bastava

25 05 2006


Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

Joaquim Pessoa

… mas este, eu li no Traduzir-se, de Liliana.





A vida bate

23 05 2006

A vida bate
Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Todos te buscam, facho de vida,
escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo na boca,
mais que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham.
Alguns te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!

Ferreira Gullar





Quando o resto é paisagem

21 05 2006


Há pessoas, tantas pessoas, que, ao longo da nossa vida, passam, como passam as paisagens pela janela em qualquer viagem. Nada mais são, nada mais querem ser, senão paisagem. Bonita, às vezes; passageira sempre…
Mas há outras pessoas que viajam connosco, que permanecem ao nosso lado por todo o caminho, partilhando tudo: os melhores, os piores momentos e mesmo todos os outros. A estas oferto a minha amizade, o meu coração, a minha alma, quem sou. Com os restantes, posso sempre aprender e seguir.





Para chegar ao que não sabes

20 05 2006

Para vir a saborear tudo,
não queiras ter gosto em nada.
Para chegar a saber tudo
não queiras saber algo em nada.
Para chegar a possuir tudo,
não queiras algo em nada.
Para chegar a ser tudo,
não queiras ser algo em nada.

Quando reparas em algo,
deixas de lançar-te ao todo.
Para chegar de todo a tudo,
hás-de afastar-te de todo em tudo.
E quando chegues de todo a ter,
hás-de tê-lo sem nada querer.

Quando já não o queria,
tenho tudo sem querer.
Quanto mais eu tê-lo quis,
com tanto menos me vejo.
Quanto mais buscá-lo quis,
com tanto menos me vejo.
Quando menos o queria,
tenho tudo sem querer.
Já por aqui não há caminho.

Poesias Completas de São João da Cruz





Carta

19 05 2006

Jan Saudek

Hoje não estou em lado nenhum.





Artesanear

18 05 2006


Construindo um mundo melhor, com passinhos pequenos, conquistando, através da acção educativa. Precisávamos de mais projectos como este, Artesanear.
Obrigado Lualil!